A exemplo do que ocorreu há pouco mais de uma década, a escassez de mão de obra qualificada voltou a assombrar o setor de construção civil, que corre para entregar, no prazo, o grande volume de imóveis lançados nos últimos anos no País. A falta de profissionais atinge todas as funções, do servente de obra ao engenheiro, passando pelo pedreiro, azulejista, pintor e carpinteiro.
Nesta guerra para atrair e reter trabalhadores, as construtoras registram aumento da folha de pagamento – que, em algum momento, é repassado para o custo dos imóveis. Neste ano, o dissídio da construção civil no Estado de São Paulo, por exemplo, teve o maior ganho real (acima da inflação) dos últimos 20 anos. O índice, que historicamente tem girado em torno de 0,5%, pulou para 1,27%, segundo o sindicato dos trabalhadores no setor.
Já o Índice Nacional da Construção Civil (INCC), medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), acumula alta de 4% em 12 meses até maio, enquanto o custo da mão de obra subiu quase o dobro (7,51%). Outra frente tem sido ampliar o uso de métodos industriais de construção, como madeira “engenheirada”, perfis de aço galvanizado (“steel frame”) e construção modular. Essas novas tecnologias reduzem a necessidade de trabalhadores, porque as estruturas pré-fabricadas na indústria são apenas montadas no canteiro de obra.
Segundo David Fratel, membro do Comitê de Tecnologia e Qualidade do Sinduscon-SP, o uso dessas tecnologias de construção aumentou 30% nas obras nos últimos cinco anos. “Aumentar salário não resolve o problema, o que resolve é aumentar a produtividade, reduzindo a dependência da mão de obra.”
Residencial
Embora a dificuldade para contratar trabalhadores qualificados seja um problema generalizado no setor, ele é maior, sobretudo, no segmento de edificações residenciais. Isso porque esse segmento vive um aquecimento de projetos por conta do Minha Casa, Minha Vida e de obras de infraestrutura – aceleradas pelo ano eleitoral –, afirma a economista Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos de construção do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, com base nos resultados da sondagem da construção.
Em maio, 37,8% das companhias consultadas pela pesquisa apontaram a escassez de mão de obra para serviços de acabamento como o principal obstáculo para o avanço dos negócios. “Foi o primeiro lugar disparado, mostrando que há uma questão aí”, diz Ana Maria, que vê ainda pressão a médio prazo na demanda de profissionais para a recuperação de imóveis e infraestrutura atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul.
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mede o emprego com carteira assinada, mostram que o saldo líquido de contratações na construção entre janeiro e abril deste ano foi 16% maior ante o mesmo período de 2023.
Fonte: Estadão