Matéria Valor Econômico: Covid-19 e petróleo barato podem atrasar abertura do gás

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O efeito combinado da crise econômica desencadeada pela disseminação do novo coronavírus e a queda dos preços do petróleo no mercado internacional tornou mais remota a chance de a abertura do mercado brasileiro de gás natural avançar neste ano, por meio da chamada pública que permitirá concorrentes da Petrobras contratarem capacidade no gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol). A expectativa é que as incertezas que pairam tanto do lado dos ofertantes quanto dos consumidores retardem a velocidade da abertura.

 

Como parte do compromisso com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a Petrobras cedeu um terço da capacidade do Gasbol – um volume de 10 milhões de metros cúbicos diários (m3 /dia) – para terceiros. A chamada pública para contratação dessa capacidade, aberta pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) no meio da crise econômica, foi suspensa e não há prazo para ser retomada neste momento.

 

Segundo o gerente de gás da Associação dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), Adrianno Lorenzon, a missão de conseguir fechar um contrato de importação de gás boliviano ainda neste ano, em meio à transição do governo do país vizinho, já seria difícil. Com a crise econômica atual, a situação piorou. Fica desafiador para indústrias e distribuidoras definirem, no momento, o quanto vão consumir e, consequentemente, que capacidade pretendem contratar nos gasodutos. “[Um insucesso na chamada neste ano] Pode postergar por mais um ano a abertura do mercado”, afirmou o presidente da entidade.

O Valor apurou que, em meio à atual crise econômica, as distribuidoras de gás recorreram às cláusulas de força maior para pedir a revisão das penalidades dos seus contratos de fornecimento com a Petrobras.

 

Lorenzon garante que, embora a crise traga elementos de incerteza, o interesse das indústrias pela abertura está mantido. “Nesse momento deve estar todo mundo olhando para o mercado livre de gás como opção para a redução de custos”, afirma o representante dos grandes consumidores.

 

Segundo ele, a indústria espera que a abertura do mercado brasileiro se dê, nos próximos dois anos, por meio de três frentes: a partir da importação de gás da Bolívia; da compra de gás de sócias da Petrobras no pré-sal, que por determinação do Cade não poderão mais vender seus volumes para a estatal; e por meio da importação de gás natural liquefeito.

A partir do próximo ano, a expectativa é que comecem a operar os primeiros terminais de regaseificação privados do país: o da Bahia, que será arrendado pela Petrobras, e o da Golar instalado no Sergipe. Para quem quiser apostar na importação, o cenário de preços é positivo.

 

A consultoria especializada Rystad Energy estima que, embora a demanda mundial de gás não esteja sendo afetada pela pandemia na mesma medida que o petróleo, os preços do GNL atingirão médias mais baixas do que as esperadas em todos os mercados. Os preços já estavam em baixa antes mesmo do choque do petróleo. A expectativa, agora, é que serão necessários anos até que o efeito do coronavírus se dissipe totalmente.

 

A Rystad reduziu em 2,8% as projeções de preços no Henry Hub (referência nos EUA, principal supridor de GNL do Brasil) para 2021 – para US$ 2,43 o milhão de BTU (unidade térmica britânica). A consultoria prevê que a relação entre oferta e demanda ficará mais apertada entre 2024 e 2025, mas que em seguida haverá um aumento dos preços entre 2026 e 2027.

 

Para que o Brasil incorpore esses benefícios, Lorenzon cobra sinais mais claros sobre a abertura das unidades de processamento e dos gasodutos. Ele lembra que a ANP não informou, até o momento, o cronograma das chamadas públicas para contratação das capacidades dos gasodutos do Sudeste e Nordeste. Moreira, da Gas Energy, afirma que existem negociações avançadas no mercado livre, mas que os contratos não foram fechados porque ainda pairam algumas indefinições. Ele cita não só a falta de previsão sobre o acesso aos gasodutos, mas também a falta de regulamentação da figura do supridor de última instância – responsável por garantir a oferta aos consumidores que por algum motivo não conseguirem ser supridos por um dos agentes do mercado livre.

 

“Faltam elementos de base para que tanto a indústria quanto o supridor tomem uma posição firme”, diz o consultor, que acredita que o mercado livre começará a se consolidar entre 2021 e 2022. “O coronavírus pode reduzir a velocidade, mas os fundamentos da abertura permanecem”, afirma.

 

Fonte: Jornal Valor Econômico