As Perspectivas para as Economias Global e Brasileira em 2014

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As novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas no World Economic Outlook de abril, preveem uma expansão de 3,6% da economia mundial em 2014, o que significará uma aceleração do crescimento do produto global em 0,6 pontos percentuais (p.p.) em relação a 2013, quando essa expansão deve atingir 3,0% (contra 3,2% em 2012).Chama atenção a composição do crescimento global. Embora os países emergentes e em desenvolvimento continuem crescendo a um ritmo superior que seus congêneres avançados (4,9% contra 2,2%), pela primeira vez no período que sucedeu a crise financeira global de 2008, as economias avançadas serão responsáveis pela aceleração do ritmo de expansão da economia mundial. Assim, o FMI supõe a continuidade do novo perfil do desempenho da atividade econômica mundial que emergiu no segundo semestre de 2013, marcado pela aceleração do crescimento nas economias avançadas, simultaneamente à desaceleração das economias emergentes e em desenvolvimento.

Em 2014, o novo contexto de aceleração do crescimento das economias avançadas beneficiará as economias emergentes pelo canal da “demanda externa”. Segundo o FMI, o ritmo de expansão do volume do comércio internacional deve atingir 4,3% em 2014, um avanço de 1,4 p.p frente a 2013. Esse efeito positivo, todavia, se concentrará nos países exportadores de bens manufaturados. Já nas economias emergentes e em desenvolvimento produtoras de commodities, o aumento das quantidades exportadas será atenuado ou anulado (dependendo da composição das pautas exportadora e importadora) pela queda dos preços desses bens, que será mais forte que em 2013 no caso das commodities metálicas e agrícolas (3,5%). Já o preço do petróleo deve ter variação anual praticamente nula.

As projeções do FMI também supõem uma pequena queda dos fluxos de capitais para as economias emergentes em 2014 e que a reprecificação dos bônus e ações de algumas dessas economias em 2013 (alta das taxas de juros e queda dos preços, respectivamente) não deve ser revertida. Isto significa uma deterioração das condições financeiras gerais para esse grupo de países, que afetará negativamente o desempenho da atividade econômica, sendo um dos principais determinantes da revisão para baixo da projeção de crescimento das economias emergentes e em desenvolvimento no WEO de abril em comparação ao de out/2013.

Assim, a dinâmica da economia global traçada no cenário básico do FMI, terá impactos antagônicos sobre os países emergentes: enquanto a aceleração do crescimento nas economias avançadas impulsionará as exportações de bens manufaturados, o “tapering” resultará na redução dos fluxos de capitais e os preços das commodities não-energéticas recuarão diante da desaceleração e do novo perfil do crescimento da China e das condições favoráveis de oferta de metais e alimentos.

Para a economia brasileira, se o cenário básico se confirmar, o efeito líquido desses impactos será provavelmente negativo. No que diz respeito ao desempenho do comércio internacional, a maior demanda externa de bens manufaturados não deve compensar o impacto negativo da queda dos preços das commodities diante do perfil da nossa pauta exportadora, intensiva em metais e bens agrícolas. Vale lembrar que o período prolongado de moeda apreciada e a maior concorrência de produtos industriais após a crise global resultou não somente em aumento das importações desses produtos, mas também na perda de participação das exportações brasileiras nos mercados latino-americanos em função da enxurrada de produtos chineses.

Essas mudanças profundas certamente reduziram a elasticidade das exportações de manufaturas a depreciações cambiais e variações da demanda externa. Em relação aos fluxos de capitais, o alto grau de abertura financeira, a existência de mercados financeiros (derivativos e de capitais) líquidos e o atual déficit em transações correntes (superior ao ingresso líquido de investimento direto externo estimado pelo BCB), tornam a economia brasileira vulnerável à deterioração nas condições financeiras internacionais prevista pelo FMI.

Contudo, seu impacto negativo poderá ser atenuado por três fatores: o endividamento externo em moeda estrangeira continua baixo em termos históricos; a participação dos investidores estrangeiros no mercado doméstico de dívida pública ainda é pequena (apesar de crescente nos últimos anos) e o nível de reservas internacionais é significativo (embora inferior ao passivo externo de curto prazo).

Todavia, informações recentes, divulgadas após a publicação do WEO de abril de 2014, sugerem que o cenário básico do FMI pode se revelar otimista do ponto de vista do desempenho da atividade econômica global e do volume do comércio internacional e pessimista no que diz respeito aos preços das commodities metálicas e agrícolas e, principalmente, aos fluxos de capitais para as economias emergentes e em desenvolvimento em geral e, para o Brasil, em particular.

No primeiro caso, a OCDE anunciou dia 20 de maio que o PIB de seus 34 países membros avançou somente 0,4% no primeiro trimestre de 2014, 0,1 p.p inferior ao resultado do último trimestre de 2013. O resultado decepcionante decorreu dos desempenhos dos Estados Unidos, cuja atividade econômica foi afetada de forma adversa pelo inverno rigoroso, da França e da Itália. Já Japão e Alemanha surpreenderam positivamente, mas sob influência de fatores excepcionais (antecipação dos gastos das famílias devido ao aumento do imposto sobre o consumo previsto para abril e inverno ameno, respectivamente), que não estarão presentes nos próximos trimestres. Assim, a previsão do FMI para o PIB das economias avançadas e, consequentemente, para o volume do comércio mundial, pode se revelar otimista. Indicadores antecedentes sobre o desempenho desse volume nos primeiros meses do corrente ano (Thai Le e San Andres, 2014) também sugerem um dinamismo mais tênue do que o suposto no atual cenário básico desta instituição.

No segundo caso, os preços das commodities nos mercados futuros voltaram a subir em função de dois fatores. Por um lado, as expectativas dos investidores em relação à demanda por commodities pela China tornaram-se menos pessimistas diante do consenso de que o governo chinês evitará uma forte desaceleração (reforçado pelas medidas de estímulo fiscais e monetárias adotadas em maio). Por outro lado, diante da alta probabilidade do El Niño em 2014, os mercados futuros já começaram a precificar seu efeito sobre os preços de várias commodities que historicamente se elevam em anos de ocorrência desse fenômeno climático, como níquel, cobre, soja e café (Arnold, Iosebashvili e Yap, 2014 e Wexler, 2014). Os índices efetivos das commodities já começaram a refletir o ajuste nas cotações futuras: o índice composto do Commodity Research Bureau (CRB) e os índices de metais, matérias primas-industriais, óleos e gorduras e alimentos acumulam alta no ano até abril (ver: http://www.crb.com).

No terceiro caso, a aversão aos riscos em âmbito global (medida pelo índice VIX) continua baixa e o rendimento dos títulos do governo estadunidense de 10 anos no patamar de 2,7%, reflexo das expectativas de que o “tapering” seguirá em ritmo lento, a taxa de juros básica nos Estados Unidos permanecerá estável até meados de 2014 e as condições monetárias nos demais países centrais persistirão acomodatícias. Ademais, o resultado pífio do PIB da área do Euro no primeiro trimestre de 2014, mencionado acima, reforçou a probabilidade de o BCE adotar medidas de política monetária não-convencionais. Esse contexto mais favorável aos países emergentes, ao lado da perspectiva estável para o rating soberano do país pela Standard & Poor´s (após o rebaixamento de BBB para BBB- no final de março) e do elevado patamar da taxa de juros básica da economia brasileira, resultou num expressivo ingresso líquido de investimentos de portfólio em busca de rentabilidade no primeiro trimestre do ano, que atingiu US$ 11,9 bilhões contra US$ 8,8 bilhões no mesmo período de 2013 (ver: http://www.bcb.gov.br).

Assim, é possível traçar um cenário alternativo mais favorável à economia brasileira em relação ao cenário básico do FMI. Diante das características da nossa inserção externa, preços das commodities mais altos ou estáveis e um comportamento mais favorável dos fluxos de capitais estrangeiros em relação a 2013 devem mais do que compensar o efeito negativo do menor dinamismo do volume do comércio internacional.

Todavia, como o FMI também alerta, vários riscos ainda estão presentes e um cenário mais desfavorável à economia brasileira não pode ser descartado. O contexto atual é marcado por alta volatilidade e incerteza nas esferas econômica, política e geopolítica, no qual diariamente os mercados reagem (positivamente ou negativamente) a novas informações quantitativas ou qualitativas (nessas três esferas). A ironia da dinâmica atual da economia internacional é que notícias negativas sobre o desempenho do nível de atividade nos países avançados (sobretudo, nos Estados Unidos, emissor da divisa-chave) impactam positivamente os preços dos ativos financeiros (por exemplo, ações e taxas de câmbio dos países emergentes) e o apetite por risco. Assim, uma recuperação menos robusta nesses países que a projetada pelo FMI (mas, sem deflação) pode beneficiar a economia brasileira devido ao efeito positivo sobre o ingresso de recursos externos (que mais do que compensará o impacto negativo sobre as quantidades exportadas). Em contrapartida, é possível vislumbrar um cenário no qual a deflação na área do Euro se torne realidade, suscitando uma reação negativa nos mercados financeiros, com forte alta da aversão aos riscos e, assim, saída dos fluxos de capitais dos países emergentes, incluindo o Brasil; e/ou de maior queda dos preços das commodities devido a uma desaceleração mais intensa da economia chinesa (em comparação com o cenário tomado como referência).

 

Fonte: IEDI - Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial