A crise de custos, que ameaça a entrega de mais de 125 mil moradias do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) nas regiões Norte e Nordeste, vem chamando a atenção da indústria. Segundo um estudo realizado pelo FNNIC (Fórum Norte Nordeste da Indústria da Construção) em parceria com a BCB Inteligência em Dados, investimentos superiores a R$14,5 bilhões estão sob ameaça direta devido à inviabilidade financeira dos contratos atuais.
Segundo o levantamento, feito com base em notas fiscais de obras realizadas entre 2023 e 2026, os custos da construção registraram aumentos expressivos em diversos insumos essenciais. Entre os principais reajustes estão o cabo de cobre (+64%), a tela soldada Q-92 (+54,1%), tubos e conexões de PVC para esgoto (+33,2%), eletrodutos flexíveis (+22,9%), tijolos cerâmicos (+21,2%), aço CA-50 (+20,4%) e cimento Portland (+17%). O cenário se intensificou entre março e abril de 2026, com novos aumentos anunciados por fabricantes de cimento, concreto, argamassas e materiais de PVC, ampliando a pressão sobre os custos das construtoras e comprometendo a viabilidade econômica de empreendimentos habitacionais.
O reajuste de 3,53% nos tetos do MCMV para os grandes municípios do Nordeste, aprovado pelo Ministério das Cidades, vem sendo considerado insuficiente pelo setor de construção civil, já que, no mesmo período, o Custo Unitário Básico (CUB), indicador que mede o custo real das obras, acumulou alta de 14,28% na região Nordeste e de 35,95% na região Norte.
A ameaça de paralisação ou atraso na entrega de 125 mil unidades habitacionais representa um grande volume de pisos, azulejos, blocos cerâmicos e telhas que deixarão de ser comercializados no curto e médio prazo. Para as indústrias que abastecem especificamente as regiões Norte e Nordeste, isso pode significar retração no volume de vendas e acúmulo de estoques.
Adicionalmente, como o principal polo produtor de revestimentos cerâmicos do Brasil está concentrado no Centro-Sul (especialmente em São Paulo), enviar produtos para o Norte e Nordeste já envolve um custo logístico elevado. Com a crise orçamentária das construtoras dessas regiões, o espaço para absorver o custo do frete de produtos vindos do Sul e Sudeste se restringe, pressionando a competitividade das indústrias cerâmicas nesses mercados.